quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Contexto contestado


“O extraordinário é aqueles que cansam sua razão para fazer com que relacione certos acontecimentos com forças ocultas não fazem o mínimo esforço para evitar de verificar a verdadeira causa”Montesquieu

Após anos de desenvolvimento do pensar, constitui-se um desatino o ato de julgar determinada atitude desconsiderando o contexto no qual está inserida. Porém, em diversas circunstâncias, embora o cenário e as motivações sejam supostamente levados em conta, o equívoco teima em se fazer presente, quiça de forma análoga ao vício que expulsamos fervorosamente quando nossos vizinhos estão observando; o qual, porém, chamamos de volta assim que os olhos alheios perdem-nos de vista.

Um exemplo assaz relevante, cuja exposição decerto servirá para elucidar o ponto de vista deste escrito é a morte de um ou mais indivíduos indefesos causada por outrem. O assassinato é visto como atroz nos mais distintos lugares, sendo seu perpetrador punido com diferentes castigos. Em contrapartida, louros recaem sobre quem mata seus inimigos na guerra, eis uma mudança de contexto e de ponto de vista acerca da ação cometida. 

Ademais, meninas que saem à noite dotadas de um indumentária dita como indecorosa por muitos são vítimas dos mais infundados impropérios por parte de observadores; o mesmo, contudo, não ocorre com quem estiver usando um biquíni comum em uma praia. Destarte, surge sem vagar uma questão à mente: não estariam as mulheres na praia mostrando mais partes de seus corpos do que suas congêneres frequentadoras de festas? Não seriam ambos locais voltados ao lazer e à diversão? Assim sendo, o que permite certas vestimentas e um e em outro, não?

Quando a escolha feita por alguém não é passível de afetar outrem de forma danosa, qual o sentido deste intervir nas ações daquele? Soa realmente difícil para a razão responder a tal questionamento. Se tais intervenções benéficas fossem postas em prática o tempo inteiro, muitas televisões seriam desligadas enquanto seus pobres telespectadores lançavam-lhes olhares estúpidos de forma similar às baboseiras que recebem em troca, sendo este apenas um dos exemplos não efetuados amiúde. 

Concluindo, é inegável o valor do contexto na avaliação dos fatos, entretanto este vem sendo mal interpretado em incontáveis situações. Tudo isso se dá pois as pessoas têm predileção por voltar-se ao mesquinho, como na obra 1984, de George Orwell, na qual os proles utilizavam suas memórias para decorar dados concernentes aos números da lotéria, porém esqueciam seu passado completamente, porque não o julgavam tão relevante quanto a possível sorte grande. 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Destino desfeito


Seu fado o enfada;

Sua farda mofada

Representa outrem

Pois soa-lhe aquém

De seus princípios

Que dias insípidos

Buscam evitar

Para sua alma salvar


Não crendo em destino

Julgando-o um desatino

Alcança-se a liberdade

A visão com profundidade

Cansa-se da resignação

E há início a reação

Dissolvendo-se pretextos

Imergindo em belos textos


A pena pode tudo escrever

Igualmente se dá  com o viver

Menos limitações na poesia;

Mais liberdade, todavia

Versos e homens livres

Abertura a distintos alvitres

Porém o sonho se pinta

Antes que finde-se a tinta


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Tesouro espúrio


Muitos baús podem se encontar destituídos de tesouros

Embora belamente adornados, por dentro estão vazios 

Sequer terão cruzado o mundo em encantadores navios;

Havendo neles apenas o que são por si sós joias e ouros


Porém, em tempos deveras áridos para o intelecto

Navegar em um fabuloso, mas conturbado mar

Representa do porto intitulado felicidade se distanciar;

Teima-se em transformar um espírito jovial em provecto

Quando pelo veneno da resignação nos tornamos infectos


No final das contas, percrustar oceanos é realmente tentador

Embora a água límpida e espumante seja vista com temor

Por quem não sabe nadar e tal arte não se dispõem a praticar


Somente os peixes sem ínfimos esforços nascem e saem nadando

Quanto a nós, desde os tempos de antanho, foi preciso empenho

Pois se inexiste, indubitavelmente haverá pretextos ao desdenho

Porquanto onde a indolência governa, a si mesmo se está enterrando


Seria mais sensato realmente, destinar às profundezas da terra

Baús por belas pedras incrustados, contudo da ignorância aliados

Ao invés de arcas de aspecto não tão sublime à falibilidade da visão

Porém, cujos tesouros recônditos satisfazem a um plácido coração

 

domingo, 22 de novembro de 2009

Existência simbólica


É imensurável a quantidade de elementos meramente simbólicos ao nosso redor; porém, damos-lhes desmesurado valor. Um exemplo básico e deveras relevante é o dinheiro, a qual obtenção uma miríade de vidas é sacrificada, pode-se adaptar a fala de Monstesquieu aos tempos contemporâneos: "Não há nada de tão extravagante como fazer perecer um número incontável de homens para tirar do fundo da terra ouro e prata; esses metais, em si mesmos totalmente inúteis, e que só são riquezas porque foram escolhidos para serem símbolos". Há um interessante apólogo de Esopo, no qual uma galinha encontra um preciosíssimo diamante; o qual, entretanto, de nada lhe serve, destarte a ave profere que preferia um punhado de alimento a tal "preciosidade". 

Dando continuidade, há um exemplo mais patente do que a autoridade? Esta que pode ser representada por uma farda, por um título, etc. Entretanto, como disse um formidável autor, cujo nome infelizmente olvidei, um policial pode agredir a própria esposa e mesmo assim prender os outros indivíduos quando achar seus atos em desacordo com o permitido, da mesma forma, um médico pode ser viciado em cocaína e receitar medicamentos a uma infinidade de pacientes. Acabamos julgando exímios tais seres unicamente por suas marcas de autoridade, marcas simbólicas. Todavia, de nada servem realmente tais indícios, porque como afirmou Erasmo de Rotterdam: “Não falta quem faça pintar leões, águias, touros e leopardos em seus brasões, mas só possui a verdadeira nobreza quem pode esculpir suas insígnias com tantos emblemas quantas as artes liberais que cultivou".

No final das contas, acabamos nos  acostumando a supervalorizar o que em si mesmo não significa nada, não passando de inutilidades ou de inocuidades, como promessas e juramentos*, que em inúmeras ocasiões são desfeitos, em contrapartida são mantidos até o fim em outras situações, gerando imensos desgostos a seus fiéis executores; também podem ser inofensivos, decerto. Um caso cotidiano é ir ao cemitério no dia de finados, pôr flores defronte a onde jazem os restos de nossos entes queridos, não sou contrário ao ato de rememorar pessoas amadas, que não mais estão vivas, entretanto seria mais eficaz olhar algumas fotografias nossas e de nossos familiares juntos com quem já se foi e de quem estaríamos recordando, ademais é  tão agradável ouvir causos inusitados acerca de tais pessoas que tanto estimamos, histórias que desconhecíamos ou das quais sequer nos lembrávamos. Do contrário, preferem-se fazer algumas orações ante o sepulcro, estas que pra mim nada significam.

Há pouco tempo, participaram-me que em um velório  de um  pai de família, os filhos e a esposa do mesmo sequer beijaram o falecido antes de o caixão ser fechado. Tal fato me foi noticiado como sendo horrendo, uma extrema falta de respeito ante quem se foi. Porém, o que representaria um ósculo a quem nem mesmo poderia senti-lo? Não seria muito mais satisfatório se lhe destinassem pensamentos carinhosos, se nutrissem de genuíno afeto lembranças concernetes a ele e com carinho mantidas? Eis um derradeiro exemplo de atitudes simbólicas, este retratado na obra Dicionário filosófico de Voltaire: o batismo representa a purificação, assim sendo, outrora, podiam-se cometer as maiores atrocidades, bastando a cerimônia de batismo para livrar o homem de seus pecados. 

Podemos nos deparar com casos inócuos, danosos e, até mesmo agradáveis*de objetos ou ações com valor simbólico, mas há um grande equívoco em não se aperceber de tais características não reais, pois alguns casos podem ser extremamente maléficos, usados visando prejudicar os demais a fim de elevar seus utilizadores; tais elevações que, todavia, são na grande maioria das vezes unicamente simbólicas.  

*Se, na obra Esaú e Jacó, de Machado de assis, os dois irmãos tivessem cumprido a promessa feita ante o jazigo de Flora ou o juramento feito a sua mãe, em seu leito de morte, teriam sido  extremamente infelizes.

*Um caso útil é a forma como as vacas, não somente elas, são vistas pelos hindus, assim sendo, tais animais são incrivelmente bem tratados. Em contrapartida, há as castas na Índia, que julgo infundadas e execráveis.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Soneto saudoso


O café esfriou de tanto nos esperar

A xícara, outrora cheia, a se esvaziar

Gota a gota caindo sorrateiramente

Como as lembranças a deixar a mente

-

Porém, as memórias cativantes se prendem

Se perdem, mas logo tornam ao lar; se rendem

Contudo, receio que um dia não mais retornarão

Perder-se-ão em meio a outras atuais e sumirão

-

Suas crendices serviram para nos afastar

Mentiras aconchegantes para sua vida adoçar 

Mantendo-a distante, receosa de pecar

-

Espero que seu equívoco seja percebido

Libertando um puro coração oprimido

Unindo-o a um saudoso e velho amigo

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O conto da ave aventureira




Era um inverno feroz, e muitos animais haviam se mandado da gélida floresta para áreas mais aquecidas, onde o sol fosse capaz de forni-los de seu aprazível calor. Uma bela ave recusou-se a fazer tal viagem com as demais, visto que sua bela e longa cauda a impossibilitava de voar. Outros pássaros se ofereceram parar cortar sua cauda, assim poderia locomover-se livremente pelos céus nebulosos, que tornar-se-iam claros gradativamente, conforme o bater de asas. Porém, a formosa ave declinou o convite, dizendo-lhes que os veria no ano vindouro. Seus companheiros se foram, levando consigo belas canções e companhias agradabilíssimas.

Os dias foram passando com muito vagar, imperava o silêncio e a bela ave nada fazia, afora observar extasiada seu belíssimo adorno corporal. As plumas balançavam lentamente com a brisa, parecendo abranger todas as mais formidáveis cores. Ora brilhavam em tons mistos de roxo e azul, em outros momentos, era o vermelho e o verde a prevalecer. O cuidado com tais penas era tremendo, não as deixava entrar em contato com a água da chuva, porque esta almejava arruiná-las devido a sua inveja, julgava que o próprio céu não admitia tamanha formosura e tencionava desfazê-la, também esquivava-se do vento, porquanto este poderia, sorrateiramente, furtar-lhe uma de suas preciosas penas, pois era notória sua famosa arte de caçador de tesouros preciosos; contudo, o distinto adereço a ninguém pertencia, exceto a si mesma.  

Entretanto, com o decorrer do tempo, a ave foi se enfastiando de apenas ostentar sua graciosidade à chuva e ao vento, esses que recebiam desmedida importância por parte dela, justamente por seus intentos perversos, porém pouco plausíveis, até mesmo para sua idealizadora. Não ousava adentrar a parte central da floresta, porque era lá que habitavam os animais mais famintos. Assim sendo, expulsou tais pensamentos de sua cabeça; não iria ao meio da floresta, estava decidido. Procurou algo a fim de se entreter e instantes depois, estava a acariciar suas penas. Achava-as tão macias e sedosas, embora não estivessem em contato com o sol. Porém, pensava, pelo astro rei sequer era benquista, muito pelo contrário, o mesmo, em sua inferioridade de beleza, emitia raios quentíssimos diretamente em sua direção, ambicionando incinerar suas plumas que o pospunham longamente à ave em matéria de encanto. Não era para menos que o local onde mais sentisse calor fosse nas penas, este muitas vezes difícil de aguentar; contudo, ela era perseverante.

Entretanto, perto da lua, o sol era até bondoso, pois essa já que não podia competir com a ave em exuberância, porque o esplendor da mesma eclipsava a rainha da noite, decidiu deixar toda a floresta imersa na escuridão durante um longo período, diariamente e sem tréguas. Sendo dotada de um imenso egoísmo, seu lema era: "se eu não for admirada, ninguém será".

Sua graça passou a irritá-la, porque pensava: "de que adianta ter uma infinidade de belas plumas e sequer um ínfimo grupo de observadores dispostos a elogiá-las?". Comparava-se ao mais sublime dos poemas, nunca lido por ninguém, exceto por seu autor. Sentia-se imensamente triste, almejava fazer consigo mesma exatamente o que faria com a folha na qual estava escrito o poema há pouco pensado. Rasgá-lo-ia em centenas de pedaços e os jogaria no vento com raiva, como que zombando do onipresente gatuno, pois, naquele momento, de nada lhe serviriam os enfeites da ave.

Por fim, não mais suportando o infindável tédio, resolveu dirigir-se ao cerne da floresta. Aprumou as plumas e repleta de expectativa, caminhou lentamente. Após alguns passos, já pôde ouvir o barulho dos outros animais. Escondeu-se atrás de uma árvore e principiou a perscrutar o que havia mais adiante. Deparou-se com um belo leão, deitado na grama, cuja expressão denotava enfado. Resolveu que obteria um elogio do rei da floresta e, parando diante de seus olhos, debaixo de um ponto propício iluminado pelo sol, ergueu entusiasticamente o mar de penas, que luziu maravilhosamente. Quando seus olhos buscaram o selvagem felino, nada divisaram, então voltou-se para o outro lado, avistando, de súbito, o enorme animal, este que detinha um olhar horrendo e exibia dentes imensos e incrivelmente afiados, que, em poucos instantes, abocanharam a bela ave. Destroçaram-lhe furiosamente o frágil corpo, não deixando praticamente nenhum remanescente, excetuando algumas poucas penas banhadas em uma poça de sangue quente. Estas que o vento não tardou em espalhar para longe.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

(In)Sensata separação


O sol vespertino sorria no horizonte, colorindo o céu, as árvores e o rosto das pessoas que passeavam pelas ruas cálidas da estação das flores. Contudo, um casal discutia, pois a garota iria fazer uma viagem para a Alemanha, esta que duraria 7 meses e lhe seria de extrema relevância. O rapaz não se opunha à viagem; todavia, não cria na possibilidade do romance perdurar, porquanto cada um viveria em um continente distinto. A jovem objetava que eles não se envolveriam com ninguém, continuariam o namoro mesmo longes, porque logo ela estaria de volta.

Ele lhe disse que seria impossível fazer um juramento de não se envolverem com outrem, pois não podiam controlar o acaso. A menina retorquiu que se ele a amava, seria simples de cumprir tal promessa. Todavia, obteve como resposta palavras tristes que afirmavam ser simples amar alguém quando há proximidade, contudo a distância muda tudo, porque viviam um romance movido pelos sentimentos, não pela razão, dessa forma, como poderiam prever suas ações futuras? Afiançar a eternidade de um sentimento? A garota não conseguiu dissimular sua desolação ao ouvir tais sentenças. Verteu pequenas lágrimas que marcaram seu formoso rosto. Deixando o rapaz muito embaraçado, pensando freneticamente; entretanto, sendo incapaz de emitir qualquer comentário reconfortante.

Por fim, proferiu desengonçadamente palavras que unicamente serviram para recrudescer a consternação da menina. Afirmou-lhe que há um grande equívoco entre os indivíduos, porquanto desejam adaptar os sentimentos a eles próprios, não o contrário. Equiparou tal conclusão a um ente que está insatisfeito com a linguagem do livro que tem em mãos, visto que não a compreende plenamente, porém a obra não pode ser modificada, pois já está impressa, já foi finalizada, assim sendo, cabe apenas ao leitor se adaptar, pegar um dicionário e aprender os vocábulos que desconhece. O mesmo até poderia buscar outras edições do escrito, onde encontraria mais facilidade em certos trechos, contudo se complicaria em outros, pois a essência é a mesma.

A menina lhe disse, já com os tristes olhinhos azuis marejados, que, como ele mesmo dissera, sendo o amor algo não racional, não deveria receber esse tipo de análise. Afirmou que já haviam brigado algumas vezes, e haviam se acertado novamente há pouco tempo e agora quando estavam felizes, ele solaparia tudo. O jovem implorou-lhe que não chorasse; odiava vê-la de tal forma. Contudo, afiançou que já haviam terminado e tentado novamente inúmeras vezes. Comparou-os a um lápis, o qual tem a ponta quebrada, logo o apontam a fim de recobrar-lhe a funcionalidade; contudo, cada vez que o consertam, ele vai diminuindo de estatura, chegando a um momento em que não sobrará nada.

A jovem compreendeu tal metáfora e, imersa na dor, saiu desconsolada, sentido uma tristeza para ela inexistente, jamais imaginou que um sentimendo alcançasse tamanha intensidade. Pediu que o rapaz a deixasse em paz quando esse tentou se redimir. Declinou seus pedidos de perdão e disse-lhe para jamais procurá-la novamente. O jovem quedou paralisado, principiou a andar sem rumo, errando de rua em rua. Nos poucos momentos em que erguia o rosto, divisava prédios horrendos, pessoas sem graça, uma natureza mórbida que parecia deleitar-se com seu infortúnio. O leve movimento das árvores parecia zombar dele. Baixou novamente a cabeça e seguiu caminhando.